Nunca consegui refletir direito sobre o que acontecia na terra natal do meu pai. Ele mesmo não falava nisso, ainda tenho família lá. Não era assunto vetado, mas ninguém discutia isso no jantar. Devia ser duro ver seus patrícios, as pessoas que moravam na terra de que ele tanto sentia saudade, cometerem atos indesculpáveis e injustificáveis sob qualquer ponto de vista, ele, que sempre achou justificativa para tudo na vida. Acho que foi até um pouco por causa das atrocidades cometidas pelos sérvios que ele, depois de mais de 30 anos, pediu a cidadania brasileira, concedida dias depois de sua morte.
Enfim, é difícil, é complicado, é muito próximo.
Fax from Sarajevo veio na hora certa. É a história de uma família bósnia durante o cerco em Sarajevo, entre 92 e 93. O pai enviava faxes aos amigos americanos e do resto da Europa, contando seu dia-a-dia e pedindo ajuda para fugir da cidade. Eventualmente, eles conseguiram escapar. Quantos não tiveram essa sorte? Um relato completamente parcial, sim, mas era exatamente do que eu precisava.
Moral da história, pelo menos para mim? Basta alguém numa posição de poder autorizar, que as pessoas mostram o que têm de pior. Ontem, hoje, amanhã, sempre.